Antônio de Souza Filho
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O Último Amor de Madalena

Já se passavam das cinco horas da tarde o meu dia tinha sido exaustivo, naquele momento estava concluindo uma peça tipo defesa criminal de um cara louco pra sair da cadeia e se dizia totalmente inocente, injustiçado. O meu coração estava aos pedaços de tanta piedade que eu estava pedindo do juiz. Finalizado, OK!

Fiz o meu gesto clássico de cansado, levantei os braços, trancei os dedos por sobre a cabeça, dei uma leve espreguiçada, indo com a cadeira até o ponto máximo para trás, olhei a mesa ao redor, arrumei alguns clips em seus devidos lugares, manejei o computador pra desligar, levantei, mas vi que ele pediu umas atualizações e como não gosto dele desligando sozinho sentei de novo a espera do “agora pode desligar”; peguei meu celular e pensei - vou dar uma olhada no “face book”.

Nesse instante o interfone toca, atendi – Doutor! Tem uma senhora aqui querendo falar com o Senhor, olhei no relógio cinco e dez, respondi – como assim falar comigo é cliente, tá na agenda?! Você já viu que horas são?! Diga para vir amanhã, veja uma brecha na agenda se o caso realmente for urgente. - Sim já fiz tudo isso aí que o Senhor falou, não é cliente, não tá agendado, não quis me falar o problema e eu já estou a trinta minutos querendo marcar para amanhã, já tem até hora certa, mas ela tá irredutível, só sai daqui se falar com o Senhor, ela não se cansa de falar.

- Santo Deus, tanto que eu peço paz - eu pensei, - passei a mão direita por trás da orelha, cocei o cangote, fiz uma última indagação; o que lhe parece é caso cível, criminal, família – E como está vestida, parece ter dinheiro? – ah, Doutor eu não olho as pessoas assim não, pra mim todo o mundo é igual – Eu ri por dentro e pensei – essa estagiária tem futuro como advogada aí eu fiz nova colocação, doido pra ir embora, - você me disse que ela não para de falar, então o caso deve ser de família, deve ser daquelas que não fecha a matraca, irrita o marido até as últimas consequências, ele larga-lhe um beijo na boca dela, ela vai à delegacia da mulher, depois fica dizendo que escorregou no banheiro - mande ela pra Defensoria Pública tem uma aqui por perto; – à moça voltou falando, agora bem compassadamente, - eu, já, fa-lei, ela, não, conta, só, se, for, pro, Senhor. Com essa intercalada ela venceu - ok manda entrar. Mas pensei em cobrar dobrado.

- Boa tardezinha Doutor, já entrou me irritando, eu pensei - vixe Maria à noite vai ser curta, pedi que sentasse, com a mão esquerda mostrei a cadeira, - ah, que linda cadeira, chic seu escritório, meu tio, também tinha um assim, mas não deixava nenhuma de nós, quer dizer, eu e minhas irmãs entrar, ele achava que a gente ia bulir nos livros dele, tinha tanto ciúme daqueles livros, mas nunca vi ele lendo nenhum, - nesse instante ela começou a olhar na parede e já ia falar dos quadros; eu olhei pro escudo do meu clube querido; pensei - é agora que ela “lava” daqui as carreiras.

Ela passou a vista por cima da moldura do meu time de futebol, mas percebi que torceu o beiço, como não sabia se era a favor ou contra deixei, só fiquei observando seus gestos seguintes, foi então que ela me surpreendeu – olha só! Isso olhando de longe ainda sentada, aí se levantou e foi pra mais perto dos quadros; - U-hum! O que temos aquiii..; então eu sentei na minha cadeira e fiquei observando com o grampeador na mão, não sei por que.

Eu tinha vinte reproduções lindas de pinturas famosas, ela então, ficou olhando e aleatoriamente começou a tocar em cada uma, e disse - provavelmente eu não estaria aqui se elas fossem originais e completou - e nem você – tocou numa e me pareceu que a tela brilhou, era a vigésima, então falou num inglês perfeito: Dogs Playing Poker, foi pintada pelo artista americano C.M. Coolidge em 1903 foi vendido em um leilão em 2015 por nada menos que US $590,400.

Prosseguiu, tocou na outra tela, eu tive a mesma impressão - American Gothic - Esta obra é do pintor americano Grant Wood. A peça foi pintada em 1930 e atualmente está no Instituto de arte de Chicago.

Eu larguei o grampeador coloquei a mão na boca com o dedo indicador entre os lábios e o nariz, ajeitei os óculos e pensei já extasiado, se acertar mais duas obras eu não cobro a consulta – ela continuou e sempre sorria olhando pra mim, embora eu não conseguisse ver o seu rosto - O Carregador de Flores - Esta é uma obra do artista mexicano Diego Rivera, pintada em 1935 em masonite, uma espécie de placa de madeira, uma das formas mais comuns de pintura em superfícies duras. Considerado como o maior pintor mexicano do século XX.

Pedi que parasse e disse - vou indicar uma se acertar não paga a consulta; notei nela certo desconforto, mas fez ouvido – apontei para outra qualquer por pensar que talvez aquelas acertadas já fossem suas bem conhecidas, coisa de advogado desconfiado.

Na bucha outra vez, - The Night Watch - O nome real da obra é Militia Company of District II under the Command of Captain Frans Banninck Cocq, e foi pintada pelo holandês Rembrandt van Rijn em 1642. A peça mede 363 × 437cm e é propriedade do Museu De Amsterdam, mas está atualmente exposta no Rijksmuseum.

Cocei a cabeça e pensei – perdi o dinheiro da consulta, mas tudo bem estava muito contente naquela proza, e ela foi a todas, acertando as pinturas e sorrindo e o momento já estava reluzente. Olhei no relógio já beirava às nove da noite, eu disse - “Nossa Senhora” precisamos ir embora está muito tarde – ela tremeu um pouco, nesse momento estava chegando ao primeiríssimo de todos os tempos “Mona Lisa” – eu disse - esse dispensa comentários.

Ela parou em frente ao quadro e me pareceu que estava muito distante, ficou inerte e uma sensação de paz imensa eu senti naquela hora, então perguntei rompendo o silencio – se lembrou de algo? Ela disse, - sim, meu marido.

Eu fiquei tentando achar o sentido Monalisa e o marido da mulher que já me parecia amiga, ela prosseguiu dizendo: “quando a minha alma estava nos achados e perdidos Ele apareceu pra reclamar”. Nossa! Aquela frase sangrou meu coração, enchi-me de paz e uma sensação maravilhosa de esperança sacudiu todo meu ser. Eu fiquei calado, mas me pareceu que ela lia minhas perguntas – dizia ela – sim fomos felizes nos amávamos muito, tivemos filhos. Ele foi meu último e eterno amor. Ele estava a serviço do Pai cumpriu a sua missão, teve uma morte triste jamais vista – morreu por mim e por você também, Ele ainda te ama e quer...(pensei, - Madalena!).

Nesse momento ouvi alguém bater a porta, senti que Ela se afastou seu rosto me pareceu de anjo com véu e o semblante da Monalisa - me dirigi para atender, mas ouvi uma voz:

Pai, o senhor pode me levar na faculdade? Assustei-me um pouco, passei a mão no rosto, fiz o meu gesto clássico de espreguiçar e disse – sim só um minuto vou tomar banho, – tudo bem, temos bastante tempo.

Sonho lindo que se foi...

Tinha lido antes de dormir “Dan Brown – O Código Da Vinci“.

 
António Souza
Enviado por António Souza em 27/04/2018
Alterado em 22/05/2018
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