Antônio de Souza Filho
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Caramujos
 
Quando adolescente lá pelos treze anos trabalhava numa loja de confecções como Office boy ganhava pouco trabalhava muito só vivia com fome.

Ao lado da loja tinha uma confeitaria de doces incríveis, lembro-me dum que adorava, mas quase nunca comia, só comprava para outros, aquilo me matava por dentro, saia do forno sempre às dez horas momento que minha fome pulava de saltos altos na minha barriga, dava cambalhotas, um terror nunca visto, o doce era o que se chamava de caramujo, crocante com recheio não sei de que, um amarelado incrivelmente gostoso.

Lembro-me dum dia que estava perdido olhando a vitrine achando que por um milagre ele cairia na minha mão, estava quase acordando quando ouvi uma voz de anjo a minhas costas, - "quer ele para você?" Sem me virar falei baixinho, - sim, quero muito, quando olhei pra trás não vi ninguém, senti uma lágrima se aproximando - pensei: - não vou chorar baixei a cabeça e já me dirigia à porta quando novamente a mesma voz se fez ouvir: - "hei!, desistiu de querer o doce", também sem me virar falei baixinho: - "esquece", - nada disso - a mesma voz, então voltei-me e vi uma moça linda de mãos estendidas pra mim dizendo, "venha, vamos comer nossos caramujos".

Eles estavam em uma bandeja, numa pequena mesa com copos e refrigerantes, sentei num impulso e comecei a comer, ela me disse: - "calma vá devagar senão se entala" obedeci e passei a lhe notar melhor, era mesmo muito bonita, seus cabelos caiam nos ombros quase chegavam aos quadris eram de tons castanhos escuros, sua pele morena tinha um formato de rosto onde tudo combinava, boca, nariz, lábios, um verdadeiro encanto, perguntei-lhe: – como sabia que eu estava querendo comer caramujos, já sei não precisa me dizer, foi a minha cara de fome de olhos na vitrine, ficou com pena de mim, não é mesmo?

Ela sorriu novamente, corando um pouco e me pegou às mãos e disse: – coma eu ficarei feliz vendo você comer, isso é o que importa.

– Você não costuma vir aqui não é mesmo, perguntei-lhe, ela respondeu: – sim é verdade. – meu nome é Antônio e o seu, como se chama?

– Alice, ela falou com uma voz meiga e suave, - sabia, disse eu, e completei: – tinha algo de sobrenatural quando a ouvi pela primeira vez, achei ser coisa de anjo, mas não estava ao todo enganado você é realmente encantadora e seu nome prova isso.

Ela disse – hum! O que temos aqui um CASANOVA nos tempos modernos, um galanteador e sorriu bem engraçado enquanto também comia os doces e prosseguiu: – não está me fazendo à corte não é mesmo, saiba que eu estou bastante lisonjeada e continuou sorrindo.

Eu falei: - obrigado você é mesmo gentil, mas seria muita pretensão minha me insinuar desta forma para uma moça tão bonita e como bem demonstrou é muito generosa, mas me diga, sempre paga merenda pra famintos como eu e me atrevi a sorrir, então ela também sorriu e disse bem humorada: - você ri gostoso, ainda não saiu da fase de menino, gosto disso, mas não pude deixar de notar você tem dentes a mais no meio da boca e começou a ri engraçado, - não estou lhe gozando, por favor, não me leve a mal.

Na verdade meus dentes não eram regulares tinha o que se chama de “mesiodente” uma espécie de fiapo entre os dois principais da frente, mas isso apenas acrescia a minha feiura, também tinha sardas no rosto, meu cabelo era do tipo espeta caju, branquelo de cor, um espantalho que às vezes sorria.

Então lhe falei com o rosto caindo à direita: – não se preocupe já estou acostumado com a minha feiura, às vezes assusto as pessoas mesmo rindo, ao que ela me falou – Ohw! Não acho você feio, pelo contrário você é um molequinho bem charmoso e tem uma lábia bem treinada, como desenvolveu essa retórica toda?! E voltou a sorrir, não resisti, também sorri e disse, - bondade sua dizer que falo bem, tento me manter entre as pessoas e vou aprendendo o que vejo de melhor e assim vou, me defendendo de uns, saindo de outros, mas sempre tentando me aproximar dos melhores. - Um dia espero lhe retribuir esse gesto de amor que você me fez, você é realmente um anjo, um doce melhor que estes que acabamos de comer.

Ela apertou-me a mão beijou-me no rosto, sorriu novamente e foi embora. Nunca a esqueci.

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António Souza
Enviado por António Souza em 29/04/2018
Alterado em 04/06/2019
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