Antônio de Souza Filho
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A Portuguesinha

Era sempre a primeira a estar em sala, como se todos por rito devessem cumprimentá-la, mas era assim, todos sabiam – a portuguesinha assídua, nunca faltava.

Pela ordem vinha eu, às vezes tentava superá-la chegando primeiro, mas sempre perdia, ela não só chegava cedo, mas ia logo pra sala de aula enquanto eu e outros ficávamos a conversar pelo pátio do ginásio.

A primeira cadeira da terceira fileira podia-se dizer “esta tem dono” era onde ela se sentava e sem maldade alguma deixava à mostra a linda pele bronzeada de suas pernas que se cruzavam numa pose clássica das melhores educadas – ela tinha um gesto típico que nunca vi noutra garota, enquanto levava os olhos a avistar alguém, também meneava o rosto, frigia-o e brincava com os lábios indo de um lado a outro, numa doçura de verdadeiro encantamento, seus cabelos negros formavam como uma linda moldura em seu rosto afilado de nariz fino que faziam de seus lábios sempre levemente avermelhados pelo batom suave, um chamariz da verdadeira beleza, um leve ruge em sua face se revezava ao corar em determinados momentos de timidez que se fazia notar mais pra charme irresistível, quando alguém a elogiava, entre esses eu. Lembro-me, sempre dizia a mesma frase – Nossa! Hoje você está mais linda que ontem, tudo bem? – Sim, estou bem - educadamente respondia e acrescentava – nada, são seus olhos, obrigada.

Não era apenas frequentadora assídua que sempre tinha nas avaliações um ponto extra pela continua presença, mas também uma das mais dedicadas que melhor assimilava todas as matérias, seus cadernos eram sempre muito bem organizados e via-se em destaque sua bela caligrafia e em todos uns Tons da cor rosa que dizia ser a sua favorita, quase sempre tirava a nota máxima e sem modéstia alguma deixava que todos vissem.

Certa vez a indaguei: – você é mesmo muito determinada - e ela me disse que seu Pai a cobrava muito, era uma pessoa importante deputado federal e sentia-se na obrigação de honrá-lo, mas via naquilo, sua obrigação estudava por puro prazer – fiquei feliz disse que a entendia e a incentivei que continuasse assim.

Certa manhã ao entrar em sala a vi um tanto inquieta me parecia preocupada, aproximei-me e perguntei-lhe se estava tudo bem, como sempre dizíamos, porém insisti: – desculpe, mas não me parece que está tudo bem, se preferir me contar quem sabe, posso ajuda-la – ela me disse: – então, você está certo realmente estou com dificuldades, engraçado ou não, mas é na matéria que sei você domina muito bem – senti o chão se afastar dos meus pés – disse: – poxa, você não faz ideia de como ficaria feliz se pudéssemos trocar alguns assuntos, também estou querendo entender algumas coisas que você sabe muito bem, mas, por favor, não me veja como oportunista. Vamos lá o que é mesmo que está tirando de você esse semblante sempre lindo – ela riu, - você é legal embora não conversemos muito, mas não deixo de perceber como é gentil com todos.

Daquele momento em diante ficamos mais próximos, as dificuldades que ela tinha em “Crase e Verbos” logo assimilou e confesso ficou melhor que eu, mas por conta disso tornou-se quase que uma professora particular pra mim, eis que sempre me questionava das coisas que bem conhecia e eu não; era lindo vê-la me explicando determinados assuntos, às vezes pedia que repetisse somente para ouvi-la falar novamente, tinha uma voz meiga, com uma cadencia incrível, às vezes falava como se estivesse lendo, respeitando todas as vírgulas, mas também, às vezes, notava que precisava de ar pra continuar, entre uma pausa e outra, por não entender se fazia parte dela falar assim, charmosa, não dei muita importância.

Começamos a ficar mais tempo juntos, mas tomava cuidado de estar apenas em sala, não queria que imaginassem nada que a diminuísse por estar sempre falando comigo um pobretão; mas uma vez ela me disse: – já percebi você tem vergonha de conversar comigo no pátio do ginásio, disse-lhe então com o rosto corado: - não posso queimar seu filme não é assim que as pessoas falam, eu sou feio você é linda, sabe como são as coisas não é mesmo?! – melhor assim; outra vez ela fez o gesto que lhe era tão peculiar, brincou com os lábios, sorriu graciosamente e falou: – realmente você é feio pra caramba e riu a vontade, mas só agora eu percebi e continuou rindo – depois me disse: – deixa de ser bobo, somos amigos nossa alma é o que importa, sei de você sei o quanto é inteligente e legal, esqueça isso de feio e bonito – sorriu novamente e disse: - está bom “ferruginho”, fazendo alusão às sardas do meu rosto. Então quem riu foi eu – ah, é?! Vou te apelidar também, falei brincando com ela e voltamos a sorrir.

Os dias se passavam e eu via neles um colorido diferente, pouco a pouco fui percebendo que o meu interesse pelos estudos se multiplicavam comecei a tomar conta da minha insignificância ante ao mundo, e via no horizonte uma grande oportunidade, lembrava-me dos sermões na igreja que Deus é para todos, exemplo disso é o Sol que contempla o mundo inteiro, fé e persistência é a chave que abre todas as portas.

Nossa amizade era transcendente, fazíamos juntos quase todos os trabalhos às vezes eu faltava às aulas ela não, então me emprestava o caderno eu levava para casa, às vezes pedia, mesmo sem ter faltado aula numa desculpa ou outra, às vezes esfarrapada, somente para afagar aquela companhia. Com o passar dos dias nossos assuntos já não eram apenas de aulas, trocávamos ideias sobre tudo, surgiu entre nós uma grande afinidade nossos pontos de vistas quase sempre se cruzavam, foi então que certo dia eu lhe perguntei: – como você lida com as coisas do coração? É muito comum numa garota assim como você fazer imaginações criar seu próprio mundo, um castelo de sonhos um príncipe encantado não sei. Ela me respondeu: – espere um pouco, primeiro me diga sobre o “assim como você”, o que quer dizer, como acha que sou?

Naquele instante vi meu sangue esvanecer como alguém gravemente ferido sentindo o frio que fatalmente leva a morte, corei; fiquei como sem saber o que dizer – Ela então insistiu, - vamos me diga sei que ficou sem graça, mas pode falar, como me vê? – Bom, veja bem - comecei a falar - algumas vezes me peguei lhe observando, vi que você hora ou outra faz anotações num caderninho cor de rosas me parece um relicário, não é mesmo?! - pensei então e disse a mim mesmo, minha amiga tem segredos que são somente seus e conclui que talvez estivesse apaixonada por alguém – quanto ao que penso de você imagino que é o natural você é linda de boa família, muito educada deve ter problemas em se livrar de tanto assédio.

Poucas vezes a vi sorri com tanta segurança e ao mesmo tempo com tanta graça – olha só – ela me disse, primeiro você me observa depois acha que sou uma celebridade e que todos os rapazes da cidade são loucos por mim, só gostei da parte que disse me achar bonita, sei que é sincero e isso vem do seu bondoso coração, mas não é assim que me acho, e também sou uma adolescente tenho apenas 15 anos não penso em príncipes como você imagina - então eu disse – eu no seu lugar apostaria no que lhe disse – ela sorriu outra vez e me disse: – muito bem ferruginho. - Gostou de me chamar assim não é mesmo, mas não posso revidar já busquei mil apelidos pra você, mas não a vejo em nenhum senão portuguesinha. Ela novamente sorriu, - sabe que isso de chamá-lo assim é carinho, sabe ou não sabe – respondi - sim, não me importo se vem de você.

Certo dia eu entrei em sala e não a vi – agitei-me pela surpresa, esperei o próximo tempo, à hora do lanche, nada, então eu percebi que algumas colegas dela me olhavam e notaram minha aflição. - Você não está sabendo, uma delas me perguntou – disse: - não, o que houve - sobre a Noeli você está falando? Sim a moça falou ela está doente por isso não veio à aula e provavelmente amanhã também não; – exclamei; meu Deus sabe se é grave? - Não, não sei, mas me parece é um ataque de asma, você sabe a saúde dela é delicada.

O dia para mim escureceu como num eclipse total, mesmo brilhando o sol não me iluminava – pensei - agora sei por que se cansava quando falava muito, por um instante me senti culpado sempre lhe perguntava muitas coisas, também me culpei e me questionei que amigo sou eu que não sabe sequer o seu telefone e agora como posso ter notícias. Sabia onde morava, mas nunca fui a sua casa, tinha vergonha.

Outros dias se passaram tudo era igual a sua cadeira sempre vazia, lembro que ao chegar à sala eu colocava alguns livros na sua carteira para que ficasse reservada e assim caso voltasse ela estaria ali como sempre foi.

Vivíamos uma época agitada politicamente o movimento militar em plena Ditadura perseguia os que lhe faziam oposição, ou seja, não aceitavam o golpe e muitos foram presos, outros sendo procurados e outros fugindo para exílios fora do País, dentre estes vim, a saber, estava o Pai de minha amiga que era deputado federal, ela ainda doente – imaginei – deve estar sofrendo muito seu Pai era pra si um ser especial amava-o acima do limite de uma filha mais velha.

Alguns dias depois em sala de aula notei o quanto ali se tornara sem graça com sua ausência, parecia-me que a alegria era trazida por ela pelo menos pra mim que vivia com os olhos voltado para porta, esperançoso que a qualquer momento ela se abriria e a veria entrar sorrindo e olhando diretamente pra mim em primeiro lugar, sentia até mesmo sua voz rouca e meiga me chamando de ferruginho.

Num desses dias bateram à porta, estávamos tendo aula de matemática com o professor Diógenes o mais odiado do ginásio, não que fosse má pessoa pelo contrário era homem bom, mas pela matéria que ministrava com muito rigor principalmente nas provas, lembro ninguém conseguia boas notas salvo minha amiga.

Ao baterem à porta senti meu coração saltar pulsar acima da média, o professor Diógenes rabiscava com giz algumas contas na lousa azul e balbuciou algumas palavras de descontentamento, mas virou-se a meia volta e dirigiu-se à porta, tocou a maçaneta e deixou-a entreaberta, donde estava vi que alguém lhe falava e ele gesticulava como se não pudesse entender o que aquela pequena moça, vestida como uma empregada doméstica queria lhe dizer, notei que ela portava em suas mãos um envelope tipo carta ou bilhete, coisa assim, foi então que o ouvi falar: - mas Antônio, aqui tem uns cinco precisamos saber exatamente quem é senão você pode estar entregando o envelope à pessoa errada, então a moça disse: – bom, eu a ouvi falar em ferruginho, - num salto pulei da carteira, quando então o professor fez uma graça, voltou-se pra turma e perguntou - alguém aqui é ferruginho? Quase morri, somente ela me chamava assim.

- Sim professor sou eu, - falei, a turma toda gargalhou sonoramente ao que o mestre pediu que se acalmassem e fizessem silêncio, mesmo sem obter sucesso; e outros diziam, ferruginho é? Espeta caju também professor, além de sardento e riam à vontade, nunca me importei com os apelidos que tinha, por isso também ri, mesmo com o coração aflito, corri e peguei o bilhete, a garota pediu que me abaixasse e falou algo em meu ouvido.

Naquele momento não sabia o que fazer se abria o envelope e lia ou se esperava a aula terminar, tinha medo que o professor me brigasse pela falta de atenção ao que ele explicava. Entretanto ele percebeu minha angústia – aproximou-se de mim e num gesto delicado tocou-me o braço e me disse: - vou deixar que leia, faça isso rápido - e começou a andar na sala observando os demais.

Dizia o bilhete:

- Querido ferruginho! Provavelmente quando estiveres lendo esse bilhete já estarei bem distante daí, quero que me perdoe se não me despedi pessoalmente de você, mas as circunstâncias não me foram favoráveis, deves estar sabendo, meu Pai está sendo cassado querem prendê-lo, por isso temos que fugir, estamos indo para o exterior em busca de asilo político. Também quero que saiba que fico muito triste de me afastar de você, sua amizade, nossas conversas sempre me fizeram muito bem, sentirei saudades, não sei se ainda voltarei, também porque preciso me tratar num pais onde o clima seja mais ameno, nunca lhe falei, mas sofro de um problema respiratório por isso faltei às aulas nesses últimos dias e somente num clima como da Europa posso ser curada. Cuide de você procure se esforçar nas matérias que tem dificuldades, estarei rezando para que Nossa Senhora lhe ajude; ah! Mande seu endereço por essa menina que lhe entregou o bilhete ela fará com que chegue até a mim, então lhe escreverei de onde estiver. Por enquanto finja que está me dando um abraço, estou fazendo isso também aqui, breve nos falaremos. Deseje-me sorte, fique com Deus. Beijos no coração – Portuguesinha.

Meus olhos estavam marejados e o meu coração estava pulsando agitado e muito triste, o impacto das primeiras palavras me transtornaram e fiquei absolto no ar como se ali já não estivesse mais, sufoquei um grito, mas soltei um gemido, - penso ter sido a dor da alma; olhei a minha volta e todos estavam me observando, o professor estava em pé no fim da sala de braços cruzados com a mão direita fechada em punho, segurando o queixo e comandava um silencio quase sepulcral, lentamente chegou-se até a mim e me perguntou: – você está bem? Eu lhe respondi meneando a cabeça e sem querer mexi os lábios como ela fazia: – não sei, não sei – me desculpe - de repente lembrei-me da última frase no bilhete, e também o que a garota me falou ao ouvido, “rápido” foi o que ela me disse, - num salto corri até a porta, procurei a menina, mas era tarde demais ela já tinha partido.

Nos dias seguintes mudei meu caminho como ia para o ginásio, sempre passando pela frente onde ela morava, a casa estava sempre fechada e ficou assim por muito tempo. Nunca mais soube dela.

Hoje, dezena de anos mais tarde eu percebo que ainda não me esqueci daqueles dias de adolescente, às vezes muito difíceis, mas de certa forma felizes, também hoje me bateu no peito uma melancolia, - onde andará a portuguesinha – será que ainda fala daquele jeito, está mais linda, será que se curou? Não sei. Mas posso imaginar – deve estar em algum lugar muito bonito, feliz e provavelmente bem melhor que eu.

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António Souza
Enviado por António Souza em 01/05/2018
Alterado em 24/05/2019
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