Antônio de Souza Filho
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Certa Tarde

Não devo ser o único que se encanta com o cair da tarde, - é tão lindo! Já ouvi alguém dizer que nestas horas o Senhor sondava a terra e se regozijava com a sua obra. Por ultimo a hora do Anjo.

Foi numa dessas tardes, lá pelos idos de muito tempo atrás quando era adolescente, já rapaz beirando os dezesseis anos que algo inusitado me aconteceu, lembro-me bem estava eufórico, dava desmaios de boa gente, via beleza em todos os lugares, as plantas e arvores me pareciam mais lindas, as nuvens a meu ver formavam rostos de anjos, lindos animais, até as formigas me pareciam amigas, pensei: - vou visitar um amigo! – pensei melhor – não, vou fazer surpresa a um parente, - dedilhei minha fronte, decidi: - meu Tio, sim, ele sempre foi um cara legal comigo, incentivador mesmo a distancia. Embora tenha ficado por ali, só no incentivo, mas não importa.

Pois muito bem, ele morava sozinho um pouco distante, numa vila de casas modestas em outro bairro; tomei um ônibus e fiquei numa parada próxima de sua casa, caminhei, desci umas escadas que dava acesso ao local e ensaiei um assovio, mas parei porque de tão contente que eu estava somente o hino do Flamengo me vinha à cabeça, pensei – melhor não, vai que tem um vascaíno por aqui, me estraga à tarde, pronto, calei, mas o coro ficou na mente.

Chegando, vi que a porta estava entreaberta, acalmei o andar pensando d’ele estar na sala, abri um pouco mais, não o vi, fui entrando devagar, querendo fazer uma grande surpresa, mas logo nos primeiros passos ouvi sons de músicas vindos da parte da cozinha; percebi que eram músicas tristes, resolvi ser mais cauteloso, cadenciei, a frente já podia avistar o pequeno compartimento, mais um pouco e vi a cena que nunca esqueci.

Ele estava sentado numa cadeira com os braços abertos e o rosto colado na mesa de refeições, a sua frente uma garrafa de cachaça e um toca fitas, as músicas eram de fato muito comoventes, de poucos em poucos minutos ele levantava a cabeça, tomava uma boa dose da “maldita” e batia com os punhos na mesa dizendo um palavrão: - depois se abaixava novamente.

Naquele momento uma lembrança sórdida me passou a mente, encenei a imagem de um amigo vendo aquela cena e zombeteiro como era me dizia: - Isso é coisa de mulher, ele se apaixonou, qui, qui, qui qui; - rindo com a mão na boca, - bem feito! Pra deixar de ser bobo, qui, qui, qui, qui. Não deixei de ver certa graça em meu próprio pensamento, mas logo me retrai. Não tinha a menor ideia do que era aquilo. Dois passos atrás e continuei observando, tudo igual, então admiti, deve ser terrível, pra deixar alguém desse jeito. Senti pena. Também naquele momento jurei, - isto nunca vai acontecer comigo, jamais irei me apaixonar.

Voltei como entrei, fechei a porta devagar e ainda de longe ouvia a música inesquecível de “Angela Maria”.

A tarde continuou linda, mas os meus pensamentos já eram outros.

Certo dia, alguns anos depois...bem, deixa pra lá...
António Souza
Enviado por António Souza em 02/05/2018
Alterado em 12/05/2018
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