Antônio de Souza Filho
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A vida de recruta no quartel não é fácil, não conheço ninguém que diga o contrário, quer seja no Exército, Marinha e Aeronáutica, se torna péssimo quando entre a própria turma você é o mais noviço, imagina isso, o que é ruim consegue ficar pior. Era o que acontecia comigo, santo Deus!
 
Eu servi na Polícia do Exército, fui designado pra lá por conta da minha altura, porte físico, etc... Beleza não, por que eu era feio pra caramba, bravura então, nem pensar, pra ser breve vou direto ao ponto. Tirávamos serviço em três pontos de guarda, um na entrada principal, outro na manutenção fundos do quartel próximo a praia e no paiol de munições (esse, nossa!). Cada soldado pegava por três horas, meu turno era de 12 as 15 durante o dia e meia noite as 3hs da madrugada, durante o dia após o almoço eu ficava mole com sono por conta do feijãozão e a noite apavorado por conta dos meus fantasmas.
 
Era uma noite típica de filmes de terror, Alfred Hitchcock, Guillermo Del Toro e John Carpenter pareciam estar ali reunidos para juntos dirigir o que seria a minha pior loucura. Logo que saí do alojamento rumo ao posto já estava apavorado, um temporal ameaçava cair, as luzes acendiam e apagavam, todos foram dormir mais cedo por conta do tempo frio e eu ali de olhos arregalados tipo uma vaca indo pelo brejo.
 
O meu irmão havia me dado um rádio tipo transglobe da Philco, ondas médias e curtas, por ai, pegava a pilha e energia elétrica, o uso era proibido, mas eu levava mesmo assim, escondido do Cabo da guarda, - era para me distrair e não ficar pensando bobagens, tudo bem, lá vai eu, caminhar uns cem metros até chegar ao bendito posto.
 
Paiol das munições, esse era o local da minha penitencia, por ser eu o mais recruta de todos, - ele ficava há uns cem metros da pista principal que era a então estrada da ponta negra, via de duas mãos, estreita, mal dava passagem para dois carros, além disso, muito mal cuidada, cheia de buracos e vários metros de pleno barro o que gerava um poeiral danado quando estava seca.
 
O local era extremamente macabro, cheio de arvores secas prestes a cair e outras de palhas afoitas que bailavam no ar a cada ventinho qualquer, mas fazia um ruído berrante, assustador. O caminho até se chegar a bendita casinha era ladeado por matos tipo aqueles que cortam a qualquer um mesmo vestido, estavam crescidos e dificultava a visão de quem dali se aproximasse. A noite somente se reconhecia o local pela lâmpada acesa no sobrado sem varanda, senão tinha que usar lanternas, exatamente onde o soldado ficava de guarda, frente para a rua e de costas para a porta de entrada do Paiol, não tinha janelas.
 
Pois muito bem, cheguei, rendi o colega ele mostrou-se avexado, falou alguma coisa que eu não entendi, no meio do caminho ele se voltou e disse: Boa sorte, REZA! Putiranga, pela boa sorte tudo bem, mas o “REZA” me deixou preocupado, ainda tentei perguntar “por que?”, mais lá na frente quase chegando na rua eu o ouvi gritar: o  Pedrão tá por aí! – Pronto! Fiquei pensando, esse FDP tinha mesmo que falar isso.
 
Pedrão era um soldado antigo que segundo a lenda havia morrido ali, era um sujeito alto forte, bem moreno e de um fedor horrível, gambá na frente dele usava Chanel, Dior, Calvin Klain e por que não dizer “Lancaster” que era o preferido da época, mas não somente isso, sua maior referencia era a maldade, batia nos outros de graça sempre com crueldade. Sujeito do mal, e diziam que ele, sempre em noites iguais aquela costumava aparecer por ali. Morreu com vinte e nove facadas por um pior que ele.
 
Ah, meu Deus – me ajeitei coloquei o radio em cima de dois tijolos perto da tomada, sintonizei na rádio Rio Mar que era a que ficava até mais tarde e o locutor interagia com os ouvintes, eles pediam músicas, às vezes conversavam e tudo bem, me dava à sensação de estar com alguém por perto, mas o tempo me traiu – começou a relampejar e o céu escureceu, o vento ficou forte e jogava as palhas dos coqueiros pra todo lado e as alvoroçadas de oficio só faltavam desabar em cima do Paiol, eu olhava lá pra rua não passava nenhum carro sequer, a luz do poste ia e vinha e tome vento, clareava e escurecia e toda vez eu imaginava alguém correndo, fugindo não sei de que, me cheguei mais pra perto da parede, um pouco distante da porta e fiquei ali, sem pensar em nada, mas assustado. De repente a luz foi embora, nossa! Escuridão miserável, o rádio calou eu pensei vou tirar do fio e deixar na pilha, quem disse, não tinha pilha, pensei - lascou-se!
 
Ai começou a chuviscar e o vento batendo cada vez mais forte, e as palhas com ruídos mais sinistros, de repente uma trégua, parecia que tudo ia voltar ao normal, fiquei quieto, de repente um pensamento idiota me passou pela cabeça – e se o Pedrão aparece agora o que eu faria? Foi só o que deu, uma batida forte na porta pelo lado de dentro (talvez um rato, sei lá) eu já estava um passo a frente, senti que o gorro levantou sozinho da minha cabeça de tão arrepiado que fiquei, não andava nem pra frente nem pra trás muito menos pros lados, totalmente inerte – cacete o cara vai arrombar a porta - eu pensei – num impulso me abracei com a arma um FAL e sai correndo rumo a rua e pensando, não olha pra trás, corre, corre...
 
Cheguei à rua fiquei atrás do poste e a chuva fina passou a engrossar e eu dizendo - lá eu não volto o cara acordou puto, me virava de novo tentando me encorajar, mas não dava o medo vencia. Olhei no relógio duas horas, - puta merda se tiver ronda hoje eu to lascado, quando eu olhei pro lado do alojamento vi um vulto, pensei - puta que pariu, o Pedrão matou todo mundo só falta eu, aí eu me abaixei e fiquei olhando com rabo de olho, o vulto sumiu, olhei de novo, lá vem uma coisa na minha direção, parecia um tronco queimado andando bem devagar, eu me encolhi mais um pouco, tampei a respiração, olhei de novo, ele ia ao rumo do Paiol eu pensei, - não disse olha se eu tivesse ficado lá, aí me lembrei de que eu estava com um Rifle na mão cheio de bala.
 
Levantei peguei a arma de repente o cara parou, colocou a mão na cabeça abaixou o capuz e se virou, era o sargento da ronda, também moreno de olhos esbugalhados, de longe olhou pra mim e antes que ele falasse alguma coisa eu gritei, - Sargento, volte, volte parecido com a moça no final de Titanic, volte, volte, - que porra soldado, o que foi, que diabo tu tá fazendo aí fora do posto? Ele, vindo à minha direção eu dizia – o Pedrão Sargento ele tá lá – que Pedrão porra nenhuma rapaz, - ele era bem desbocado chamava um palavrão danado - que soldado é tu cacete, com um fuzil na mão, meu Deus em que mão está a nossa guarda! Isso vai pro boletim e tu sabes o que vai acontecer contigo né? Tudo bem Sargento, mas vamos ficar por aqui mesmo, não vá lá não. Não uma ova, era só o que faltava, - ele então desabou numa gargalhada, era um cara legal. Ficou comigo boas horas depois foi dormir.
 
No dia seguinte na hora do rancho ele passou por mim colocou a mão direita na boca com o dedo indicador entre os lábios e o nariz, balançou a cabeça e saiu rindo.
 
Eu também era o estafeta mensageiro e fazia serviços externos para o comandante, mas em surdina quebrava o galho de todos eles, oficiais sargentos e cabos.
 
 

 
António Souza
Enviado por António Souza em 17/05/2018
Alterado em 17/05/2018
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