Antônio de Souza Filho
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O canto das esquecidas

Se tem algo que descansa a alma, imagino que seja soltar a voz e cantar, não importa o quê, mas cantar qualquer coisa, principalmente aquelas músicas que nos fazem bem, alegres ou tristes. Digo isso não somente porque acabei de ler uma frase antiga bem conhecida de todos – “Quem canta seus males espanta”, nova não?! Pois é, mas também porque me lembrei de algumas situações, umas engraçadas e outras tristes.

Vou contar, mas saibam que nenhum côvado lhes será acrescentado, não ficarão mais cultos com isso, muito menos terão a vida eterna... rsrsr, no máximo você vai dar umas risadas de tão bobas que são as coisas. Ou não!

Pois bem, quando minha filha era pequena, uma mocinha cuidava dela, e tinha um hábito saudável de fazê-la dormir cantando e se embalando numa rede. Era ao mesmo tempo em que eu voltava do trabalho para almoçar e tirar a tão merecida sesta que nós do norte temos por costume. Meu quarto ficava ao lado e eu ouvia com perfeição a voz da então cantora.

Todavia o que me chamava atenção era o estilo de música que ela cantava, quase sempre eram músicas românticas e sofridas, comoventes, naturalmente, e eu ficava pensando: - por que diabos essa garota de mais ou menos dezesseis anos gosta desse tipo de música?! Pra mim tudo bem, já havia tropeçado em alguns degraus da vida, mas pra ela não via muito sentido. O certo é que eu dormia, imagino, primeiro que a minha filha e as benditas canções sempre me remetiam a minha adolescência.

Sim, era numa época entre os meus doze e treze anos quando eu vendia pirulito e por falta de mercado nas redondezas, visto que por ali os mais antigos piruliteiros, meu irmão e um cara por nome de Bernardo já dominavam a freguesia, eu tinha que procurar alternativas em outras paragens e numa dessas a que melhor me aprazia era a rua da cachoeira, - nossa, como tinha moleques por ali!

Tudo bem não fosse à fama que a rua tinha - ali diziam ser o baixo meretrício e a grande maioria das crianças eram filhos das senhoras de suposta vida fácil (FDP) e eu não sei por que me dei muito bem com todos eles; era muito legal, tão legal que as mulheres que moravam nas chamadas estâncias pediam a minha tábua de pirulitos e vendiam pra mim desde que eu fosse brincar com os filhos delas; quando era hora de ir embora tudo estava vendido e elas me davam o dinheiro certinho. Quase todo dia eu estava lá. Não sei por quê!

A alegria como elas viviam foi o que ficou registrado em minha mente; enquanto ficavam à frente de seus quartos, lavavam as suas roupas e quase todas cantavam em voz alta lindas canções como se fosse uma espécie de coral, as mesmas músicas e sempre dos mesmos cantores da época e também de muito antes, entre aqueles Valdik Soriano, Agostinho dos Santos, Ângela Maria, Lupicínio Rodrigues e outros... pra mim não dizia muita coisa, embora achasse lindo vê-las cantando aquelas músicas tristes.

Tinha uma delas que eu gostava mais que das outras, era a que me pedia para vender os meus pirulitos e eu deixava – ela pegava na minha cabeça e dizia: - vai brincar moleque, deixa que eu vendo pra ti. Era uma das mais jovens dentre elas, devia ter apenas vinte e três anos, por aí. Quase sempre estava de olhos vermelhos e me pareciam cansados de sono, algumas vezes a vi chorando e eu ficava me perguntando o porquê e a mim mesmo eu respondia: - ela deve estar sentindo saudades da mãe dela.

Certo dia eu voltava para pegar a minha tábua e ela estava sentada no banquinho em frente à pequena vila, faltavam apenas dois para serem vendidos e ela me falou: esses aqui são um pra mim outro pra você, eu pago; eles já estavam amolecendo por conta do sol, eu disse: - tá bom, mas não precisa pagar, eu levo o papel e o palito e digo que derreteu. Ela riu. Eu sentei-me ao seu lado e chupamos os tais pirulitos. Ela tinha os lábios carnudos eram lindos. Então tomei coragem de lhe perguntar: - Por que você não canta como as outras e está sempre triste? Ela meigamente olhou pra mim, levantou-se para entrar me entregou a tábua e me disse: você nunca vai entender, não agora, ainda é um menino. E eu fui embora.

Às vezes eu chegava em casa cantarolando aquelas músicas que ficavam latentes na minha cabeça e perguntavam de mim se eu tinha ido vender pirulito ou estava voltando d’algum cabaré. - Tá apaixonado moleque? Eu ficava calado por medo da gozação, mas pensava: - vocês não sabem de nada.

Hoje, dezenas de anos depois, ainda me vejo assim, gostando de músicas românticas e tristes mesmo sem nenhuma paixão aparente. Mas não canto, até gostaria, pois acredito que cantar realmente faz bem, em qualquer circunstância.

Quanto à garota que gostava de se embalançar cantando, pouco tempo depois fugiu com um caminhoneiro, nunca entendemos o porquê, talvez já fosse aquele o seu destino, se era derivado das canções tristes, não sei. Por último soubemos que ela está bem e feliz.

Na dúvida, cante. Afinal, o que é a vida senão uma mistura de alegrias, maravilhas, tristezas e esperanças.
António Souza
Enviado por António Souza em 05/10/2018
Alterado em 07/10/2018
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