Antônio de Souza Filho
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Flora, a cadela.
 
Nada é mais lindo que uma manga brilhando ao sol numa manhã de setembro – pelo menos pra mim, meu Deus, como eu amo árvores! – mangueiras em especial. Mas não é de arvores nem de mangas que eu quero falar, mas de um amor tanto quanto.
 
Comecei assim pra fugir da emoção, a foto diz tudo ou quase tudo. É da Flora, isso mesmo a nossa cadela ia falar cachorra, mas lembrei de que lhe devo respeito... rsrsr... Flora, esse é o nome dela a Vevê minha filha que assim a batizou. Eu já aprendi tanto com essa danadinha, desde que ela veio morar com a gente. Na verdade, ela não chegou espontaneamente deixaram-na no portão de nossa casa, ainda era muito pequenininha e o mais comovente, estava doente, ela se tremia toda e não era de frio.
 
Meu filho ficou sem saber o que fazer, então chamou a mãe e a irmã foi junta, - e agora o que vamos fazer? Ele perguntou e a irmã respondeu, - ora, vamos cuidar dela, alguém deve ter apostado nisso, e a mãe falou: - é, mas o problema é teu pai, sabe como ele é – ela respondeu: - deixa ele comigo. Quando eu olhei a cadelinha notei que tinha algo estranho, mas o olhar da cuidadora me fez pensar; calado estava, calado fiquei e ela apenas assentiu com os ombros e eu pensei: - fazer o quê, né?! O amor tem o seu estilo próprio de convencimento.
 
A missão naquele momento era como ressuscitar, praticamente, a Flora, vizinhos e parentes eram unânimes no agouro, - Ih é aquela doença que dá em cachorro..., tem jeito não...,  no máximo amanhã vocês vão estar enterrando Ela. Tenho a impressão que São Lázaro estava por perto, ouviu e quis mostrar poder.
 
Estava comigo no meu escritório um rapaz, cuidando de uma TV antiga que eu tinha, ele olhou quando eu estava voltando e perguntou: - o que foi Doutor aconteceu alguma coisa o senhor parece que ficou triste?... E eu lhe respondi: - pois é tem coisas que nos limitam à força, à vontade, nos tornam impotentes e a gente tem que se conformar; Ele riu sem graça e me voltou à palavra: - dá pro senhor destrocar pra mim, por favor, que eu não entendi nada do que o senhor falou, eu sou Técnico de TV essa fala aí é pra gente como o senhor e voltou a ri. Aí quem riu foi eu, e falei:
 
- Tá bom Zé, mas não é nada não, deixaram uma cachorrinha ai na frente de casa e ela está à beira da morte. – poxa e o que ela tem, respondeu o expert; respondi-lhe: - Ela se treme toda e não é frio, pelo menos é o que eu acho, - então ele me falou: - se fosse de gato eu poderia ajudar, já salvei uma porção deles e lá em casa já tem um monte. - Pronto! Eu pensei: - tá explicado o fedor de merda de gato que eu estava sentindo, esse cara dormiu com os felinos e cagaram nele... rsrsr. Mas disfarcei o espanto e perguntei-lhe: - e o que você fez para salvá-los; Ele respondeu: Doutor é um remédio milagroso, a baba do quiabo, os bichinhos chegam todos lascados, então eu dou umas doses pra eles e em poucos dias eles estão bem que só. Eu fiquei pensando.
 
Um pouco mais tarde, eu vi a aflição de todos querendo salvar a cadelinha, então falei da possibilidade do quiabo servir também pra cães a exemplo do Zé e seus gatos. Tinha quiabo na geladeira, a mulher disse: vou fazer e vou dá pra ela, né! Não custa nada tentar e assim foi feito. Pouco depois a Flora, como minha filha a batizou, fazendo graça, dizendo: - se morrer não será como indigente ou indicadela... rsrs, - já apresentava uma razoável melhora.
 
Nesse dia a Valentina outra cadela que criamos estava com hora marcada pra exames de rotina no Veterinário, foi lá que uma senhora em conversa com minha filha e a mãe, já sabendo do acontecido, foi mais pragmática e disse: - Não desanimem, embora o caso realmente seja de morte, mas sempre há uma esperança para aqueles que têm fé. Continuou: - eu já vi um caso assim, a Doutora que cuidou já morreu, mas a dona do cachorro mora lá na Ponta Negra (bairro bem afastado do centro) ela tem uma lojinha de antiguidades. Quando a mulher falou em fé, minha filha arregalou os olhos e disse: - Fé, isso eu tenho de sobra, vamos lá, quem sabe ela ainda tem a receita dos remédios que o cachorrinho dela tomou e talvez sirva pra Flora também. Ajustaram-se e rumaram à procura da tal mulher e não foi difícil encontrar, lojas de antiguidades num lugar geralmente só tem uma.
 
A simpática senhora as recebeu muito bem, mas exclamou: - Puxa vida! Eu não tenho mais a receita dos remédios, quer dizer do remédio por que era apenas um e nem lembro assim de cabeça o nome dele. Também a Doutora me falou que esse tratamento não é em todos os cães que dá certo. Depois de uma leve prosa e um cafezinho, Mãe e filha já estavam se arrumando pra voltar quando a doce mulher falou: - mas esperem um pouco, lembrei-me de uma coisa; e entrou na casa rumo à dispensa e de lá voltou já falando em voz alta e festiva, - vocês tem muita sorte, ainda tem uma ampola aqui, eu sabia que não tinha usado todas, que bom, podem levar é de vocês e que a cadelinha viva. No mesmo dia a Flora começou a tomar o remédio e se alimentando com a baba do quiabo.
 
Foi uma longa espera, meses, e a cada dia a Flora apresentava um quadro; às vezes estava bem, mas logo voltava os ataques parecidos como epiléticos, era como não poder se emocionar, sempre que tentava se agitar levantar e andar os ataques acontecia, e ela ficava a rolar no chão, era tão triste, só melhorava quando a minha filha a colocava no colo e ficava pacientemente com as mãos em sua cabecinha até passar. Quando eu chegava dizia pra ela, - força Flora! Você vai conseguir..., ela se torcia toda nos meus pés e ficava inerte, eu brincava um pouco com ela, até que ela retornasse. Então ela me olhava como se estivesse me perguntando, - você ainda está ai?!
 
A Valentina e o saudoso Puppy corriam a casa toda, iam no portão em toda área  voltavam e a Flora lá no cantinho dela, acho que ela acostumou-se com o seu problema ou aprendeu administrá-lo. O certo é que ela crescia e ficava a cada dia mais bonita, embora doente. Certo dia Ela levantou-se, foi até o portão, passou horas olhando pra rua, como estivesse querendo saber onde estava, latiu várias vezes em sons diferentes, não eram latidos de coação, nem de lamentos, eram uivos de alegria e de bravura, como se estivesse comemorando uma vitória.
 
Mais um pouco de tempo e ela começou a andar normalmente e os ataques sumiram; seu latido ficou forte, mas não perdeu a serenidade, sempre que chego e brinco com ela, lembro como era quando estava doente, ela parece compreender e fica roçando o corpo nas minhas pernas, e balançando o rabinho, tenho a impressão que ela controla a emoção; onde eu sento ela fica do lado, e aos domingos quando vou pra churrasqueira é quando a gente mais conversa, eu fico beliscando a carne e bebendo alguma coisa. Um pedacinho do churrasco pra mim outro pra ela, às vezes penso que ela já sabe muita coisa de mim, até mais que muita gente.
 
Ela não sai do portão, pelas grades ela vê quem passa, os vizinhos, todos eles a conhecem e ela sabe quem são os estranhos. Tornou-se uma fiel e confiável vigilante. Sempre que estou inquieto e preocupado com alguma coisa, até mesmo quando o desânimo me ameaça; pelas vidraças do meu escritório eu a vejo, sentadinha e atenta, então eu a contemplo e penso em tudo que ela passou e no enorme exemplo de superação e vontade de viver que ela ainda tem, isso me conforta. Hoje minha filha chegou de viagem, aqui tudo é alegria, inclusive pra Flora.
 
Temos mais duas cadelas e um noviço recém-chegado do sítio que por lá andava abandonado, mas isso é outra história.
 
Quanto às árvores e as mangas, também vão estar comigo, sempre! Costumo ser leal àquilo que amo.
 
Só!
 
Obrigado por ter lido.
 
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António Souza
Enviado por António Souza em 21/12/2018
Alterado em 23/12/2018
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