Antônio de Souza Filho
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Boleros, uma dança uma paixão.

Quem nunca dançou, provavelmente deixou de viver uma das facetas mais incríveis da vida, senão por dizer uma das mais fascinantes, delirantes ou como queiram adjetivar. Há controvérsias, imagino, mas não nesse mundo dos audazes carrapetas.

Já não estás mais ao meu lado coração...

Taí um dos clássicos que enlouquece qualquer dançarino é quase impossível permanecer sentado numa mesa a quatro num salão frenético, sem sentir uma vontade louca de dançar; algo coça o que exatamente eu não sei; se é o solado dos pés a panturrilha ou as proximidades da virilha, é um fogo atroz que inquieta e avassala, macacos me mordam se eu estiver enganado... rsrsr, (lembrei de velhos filmes americanos...)

Quantos já não ficaram no meio do salão com suas lágrimas contidas de saudades pueris, de amores irresolvidos e nunca esquecidos, eu me pergunto quantos?! Por outro motivo qualquer pode ser também; hemos de concordar o bolero é uma loucura, talvez o ritmo de dança mais amado por todos que apreciam esse lindo lado do romantismo.

No momento que me alegro por nunca ter me profissionalizado na dança, também lamento não ter sequer aprendido mais um pouquinho, somente para saciar essa vontade de rodopiar um salão com uma mulher infernal. Mas tudo bem, devaneio como sempre fui, se tivesse essa habilidade, nem eu próprio me suportaria, meus pecados a pagar estariam nessa e em todas as vidas que supostamente houvesse de ter.

Os mais antigos da cidade devem lembrar-se dos suntuosos salões que antes se tinham por aqui, alguns em alta sociedade e outros não menos festejados do baixo meretrício, tais como La hoje, Verônica, Piscina Club, Acapulco e o saudoso Xangri-lá, digo isso como simples apreciador visto que naquela época, ainda vestia calças curtas, em termos de experiência nesse mundo. Como parte de meus compromissos como vendedor de cigarros e bebidas era frequentar esses locais e tentar otimizar a venda de bebidas quentes como assim eram chamadas, então eu promovia degustação, apelo junto aos garçons e por aí a fora. Eu gostava do que fazia, embora soubesse que é no vício que o diabo encontra os seus prediletos.

Você deve estar se perguntando nesse momento, mas por que eu estou lendo isso? É ou não é?! Calma eu lhe peço, continue... A prosa não é ao todo perdida, trata-se de um caso excepcional de amor maluco de um cara que eu conheci e que depois se tornou meu amigo. E não se esqueça, o escritor é um romancista.

Pois muito bem, numa dessas casas eu visitava costumeiramente às sextas feiras, chegava aproximadamente as dez e saia quase sempre às duas da manhã. Ali eu conheci um garçom, já senhor, cabelos grisalhos, pele morena de rosto afilado devia ter uns cinquenta anos por aí e eu uns vinte e pouco. Ele tinha o gesto habitual de todos os outros, uma flanela na mão, uma caneta e um bloco de notas, salvo por um detalhe, vez ou outra se punha a pensar entrelaçando a caneta entre os dedos como se estivesse a vagar numa época que somente a ele pertencia e quase sempre no mesmo lugar.

Certa noite caia uma chuva fina, a casa ainda estava sem ninguém, eu me aproximei dele e fiz uma graça de início, falei-lhe: - Pensando na morte da bezerra meu amigo? Ele calmamente olhou pra mim, arrumou sutilmente o colarinho e com a mão esquerda segurou o queixo e me disse com um sorriso distante: - antes fosse, meu amigo, e repetiu: antes fosse, virou-se e seguiu rumo ao balcão. Aquilo me deixou intrigado, por conta da tristeza que eu vi no seu semblante. Em seguida outro garçom, colega dele chegou-se perto de mim e falou: - esqueça o Tonico, ele não conversa com ninguém. Eu assenti com a cabeça e fui cuidar das minhas coisas, mas percebi que o cara queria fofocar, então, andando pra lá e pra cá nos deparamos outra vez e eu lhe perguntei: - quer dizer que o cara é fechado mesmo?! Mas parece ser gente boa, não é mesmo?! Ele então parou pra conversar, com certeza se congratulando em poder soltar a língua o que me parecia estar coçando desde cedo e lardeou: - Sim, sem dúvidas o Tonico é gente boa, pense num cara legal?!

Aí quem instigou foi eu: - E qual é o problema dele, por que você disse que ele não conversa com ninguém?!

A chuva começou a engrossar e nos parecia que a noite seria um desastre de público, então ele puxou uma cadeira, sentou-se e disse pra mim: - senta aí; e prosseguiu: - tá vendo aquela penúltima mesa ali desta fileira?! Eu disse: sim, ele continuou: - pois é, todas as sextas feiras ela tinha um dono, das onze até a festa acabar, era dele, na época que ele tinha uma graninha. Estás vendo ele assim, mas esse cara dança pra caramba, ou dançava, ele era o cara das kengas, toda mulher queria dançar com ele, boleros, principalmente; menos das onze as onze e trinta, nesse horário ele se dedicava a quem ele chamava de minha musa. Com ela e apenas com ela ele dançava; era um show a parte.

Era uma mulher linda, fascinante, ela não tinha o corpo sarado por academias, sua beleza feminina era da sua própria formação, tinha os cabelos longos próximos à cintura fina, era alta para os padrões regionais e uma simpatia exuberante, vestia-se sempre com roupas notadamente caras, porém discreta; custava crer que aquela mulher frequentava esse tipo de ambiente. E continuou contando: - Mas ela tinha um dono que também só frequentava a casa nas sextas feiras. Ela chegava por primeiro e o esperava, quase sempre a meia noite via-se com clareza um Aero Willys preto parar a frente do salão, o motorista saia abria à porta Ele descia e Ela já estava ali sorrindo. Então se divertiam a vontade, porém dançavam pouco, as habilidades do cavalheiro eram limitadas, poucas horas depois eles partiam, sabe Deus pra onde.

E eu lhe perguntei: - e o Tonico? Ele respondeu: - Ele ficava ali tristonho na mesa esperando não sei o que, talvez um milagre deles brigarem e ele aproveitar-se do momento para socorrer a garota, mas isso nunca acontecia, o cara era um “gentleman”, o Tonico quase sempre ficava bêbado e dormia na mesa. Ele era um cara notável, físico de atleta, vestia-se sempre de roupa escura, às vezes preta, outras vezes azul marinho e raras noites vestia um bordouaux queimado, também usava um chapéu da época que deixava exposto sobre a mesa, fumava Minister e bebia prediletamente Martini rosé, tinha lá o seu charme.

E o que aconteceu depois?! - Eu lhe perguntei – ele respondeu: - Depois eles sumiram, tanto o Tonico como o casal da boemia, passou-se um bom tempo, num belo dia ele voltou por aqui, já pedindo emprego de garçom, o patrão já o conhecia, conversaram horas em reservado e durante muito tempo a história dele ficou somente entre eles. Mas terminamos sabendo tudo que ocorreu com o Tonico.

Então eu mais que curioso perguntei: - e o que foi que aconteceu com ele?! Ele então ergueu os braços trançou os dedos e os pôs por trás do pescoço e me disse: - é uma história bonita e triste. Ele realmente se apaixonou pela moça, procurou-a e durante um bom tempo a namorou, mesmo ela ainda se encontrando com o cara rico. Casaram-se e ela terminou o romance secreto com o amante. Mas o homem rico não a esqueceu e também brigou por ela. Largou a família e ela fugiu com ele, não se sabe pra onde. Eu fiquei pensando.

Por fim eu o perguntei: - e de quem ela gostava?! Ele olhou pra mim, mexeu nos óculos, levantou-se e respondeu: - Talvez de nenhum dos dois. Foi atender um cliente que acabara de chegar e eu fiquei matutando: - aposto que ela ainda gosta do Tonico, senão sempre o lembra, nem que seja num momento em que ouve um Bolero. Será?!
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Ya no estas mas a mi lado corazón
en el alma sólo tengo soledad
y si ya no puedo verte
por qué Dios me hizo quererte
para hacerme sufrir mas.

Siempre fuiste la razón de mi existir
adorarte para mi fue religión
en tus besos yo encontraba
el calor que me brindaba
el amor y la pasión.

Es la historia de un amor
como no hay otro igual
que me hizo comprender
todo el bien, todo el mal
que le dio luz a mi vida
apagándola después
hay que vida tan obscura
sin tu amor no viviré.
(...)
História de um amor
(Luis Miguel)
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António Souza
Enviado por António Souza em 07/01/2019
Alterado em 14/01/2019
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