Antônio de Souza Filho
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Red Bull, as mulheres da praça e o vendedor
(Contos/Causos)
 
Caminhar ainda é uma das atividades mais dinâmicas de aliviar o stress de cada dia, digo isso por mim, não sei pra você. Faço isso de segunda a sexta e sempre escolho locais diferentes desde que sejam aprazíveis para o exercício e também para meditação, uma forma de unir o útil ao agradável, e aqui tem vários, o calçadão da praia da ponta negra, a ponte que atravessa o Rio Negro, o parque do Mindu e outros. São locais lindos e às cinco da tarde, nossa! É maravilhoso. Cada um tem a sua peculiaridade, isso me diverte.
 
Hoje foi estranho, aprendi mais uma lição; tanto assim que me motivou a escrever sobre o episódio. Estava nas primeiras voltas ao redor do parque quando algo me chamou atenção, vi uma cena no mínimo hilária: duas mulheres vestidas a rigor no termo esportivo, sentadas num banco, uma de costas pra outra revezando a entrega de um objeto redondo, imagino que seria uma bola minúscula, um exercício corriqueiro para fortalecer os músculos dos braços e, ao lado delas uma terceira em pé, dando as coordenadas. Até aí nada demais, salvo pela aparência das beldades, cada qual mais feia que a outra, porém com uma agravante a instrutora era a marmota em pessoa, vestia um short de lycra apertado pouco encoberto por uma camiseta da seleção do Uruguai. Corpo totalmente fora de esquadro. Lembrou-me um desenho animado. Passei sufocando o riso e pensando: – Santo Deus se as duas estiverem se mirando na líder, lascou-se. Benzi-me três vezes e prossegui a caminhada, mas levei uma topada.
 
Andei alguns passos e minha consciência doeu e me reprovei pensando: - como é que eu sou capaz de rir de alguém por questões de estética, que sujeitinho desprezível que sou, e prossegui me penitenciando: - essas mulheres podem ser tão extraordinárias que o aspecto físico não faz a menor diferença, meu Deus me perdoe, olhei pro céu e antes de me benzer levei outra topada, eu hein! Parei num quiosque pra tomar algo e vi um cartaz bonito da Red Bull, aquilo chegou à minha mente como uma flecha varando um pudim, e de repente me lembrei de um vendedor amigo meu “Adail F. de Cristo”, aquilo me intrigou, como é que eu estou pensando nesse infeliz agora, será que ele morreu? – Não, senão teriam me avisado, - respondi pra mim mesmo, - ah, sim, - voltei a pensar: - a história dele faz todo sentido, – senti um arrepio e me lembrei de toda a trajetória do rapaz. Red Bull, as mulheres da praça e o vendedor. Vou contar pra você que tá lendo e graças a Deus chegou até aqui. Lá vai...
 
Um dos meus últimos empregos foi numa Distribuidora de Produtos, famosa pelo alcance nacional, ela representa até hoje várias multinacionais, e eu era um dos Líderes de vendedores, supervisor, coisa assim. Muito bem, a marca Red Bull estava se firmando no mercado nacional, na época os energéticos eram, ainda, uma aventura mercantil e há quase dois meses estava sob a direção de outro colega e ele não conseguia deslanchar com o produto, toda a diretoria andava de cabelos em pé com o chefe de vendas e até o gerente comercial estava com os testículos no trilho do trem como ele mesmo dizia, - “ou a marca detona ou vamos demitir gente” e ninguém queria perder o emprego. Foi aí que o GV “mui amigo” me chamou e me disse: - Souza, era assim que me chamava – vou te entregar a representação da Red Bull e não adianta tu dizer não, tu já resolveste coisas piores, só tem um detalhe, se não empinar nós estamos na rua, mas eu vou morrer abraçado contigo, e eu pensei: - Papo furado eu é que vou me ferrar sozinho.
 
A grande dificuldade, além da marca ser nova com apelos que mudavam os hábitos das pessoas, principalmente na região, onde o folclore de estimulantes naturais são variados e de bons resultados, tipo o guaraná em pó que a mais do energético é também afrodisíaco, açaí e outras iguarias, tudo isso a preço módico por assim dizer, tínhamos a qualificação do profissional para desenvolver a missão, dado a algumas exigências de fábrica, notem: o rapaz ou a garota não importava o sexo, tinha que ter uma aparência atlética, tipo “malhado, esportivo, dinâmico” que se moldasse a marca como os fabricantes queriam, Ok?! Tudo bem, até aqui... tá  - pois é, aí é que morava o perigo, ninguém conseguia encontrar essa figura, quando tinha uma coisa, não tinha outra, tentamos de todas as maneiras, até arriscando contratações; a mais hilária foi a de um rapaz que parecia reunir todos os requisitos; treinei-o a rigor e apostei no sujeito, – esse vai... pois bem – na primeira sexta feira dia de melhor pico de venda, cadê o cara, nada de aparecer na empresa, oito horas, oito e meia e nada, fui na casa dele, – morava numa quitinete com portas para a rua, bati uma vez, duas, na terceira ouvi barulho de alguém se movimentando, esperei um pouco, a porta se abriu ele apareceu com uma toalha amarrada no pescoço, totalmente afônico. E eu perguntei: - o que houve? Uma voz de mulher sonolenta dizia: - Ele canta na noite e ontem se empolgou perdeu a voz – eu pensei: - tá explicado porque anda sempre abrindo a boca, com sono e a tristeza constante; pedi o fichário e o material de venda e voltei pra empresa, mandei ajustar as contas dele. Iria perder tempo com ele, essa turma não muda de hábitos da noite pro dia. E a dificuldade continuou.
 
Na semana seguinte eu já andava desmotivado, já pensando o que iria fazer com o dinheiro da minha indenização, sim por que a rua já se mostrava bem clara. – Estava na rota de vendas com uma vendedora de outros produtos a meia marcha numa rua de bairro, – foi aí que eu vi um sujeito que a princípio me pareceu um guarda roupa de mulher pequena, com a minorante que o desajeitado caminhava igual ao Mazaroppi “o Jeca” no filme “Sai da Frente”; mas me pareceu que alguém tocou no meu ombro e eu parei o carro, olhei outra vez era Ele Adail F. de Cristo, estava com uma sacola de supermercado na mão e caminhava ofegante, eu gritei por seu nome, ele procurou d’onde vinha a voz, eu acenei com o braço para que parasse e fui ao seu encontro. Ele se alegrou: - Eh, rapaz que estás fazendo por aqui? E eu respondi, to trabalhando e você que diabo tu fazes por aqui, o que é isso na sacola, como tá a família, tudo bem? Ele começou a ri e me disse: – calma, vamos por “Jack o estripador” e ai quem riu foi eu e perguntei: - Que doideira é essa de Jack? Ele riu novamente: – Sim, por parte não era assim que o cara matava as mulheres e a conversa ficou animada.
 
Ele abriu a sacola e tinha ali, um pacote de café de marca desconhecida e um par de sandálias que não era nenhuma havaiana. E eu me toquei: - esse desgraçado tá tirando leite de pedra e uma luz me brilhou: - é o cara que eu preciso e falei pra ele: - Joga isso fora – Ele olhou pra mim e disse: - ficou doido, isso é o meu ganha pão e eu disse: – não é mais, tu deve tá ganhando uma micharia, dá pra notar nessa tua camisa horrível de marca barata e andando a pé igual o Jeca Tatu, você vai trabalhar comigo a partir de agora e em poucos meses vais estar de carro novo e com dinheiro no banco além de andar bem vestido. Ele olhou pra mim e disse: - tu sabe que eu acredito em ti, jogar fora não, mas eu vou devolver pro representante e acertar minhas contas com ele; eu disse: - tá bom entra no carro que a gente vai junto.
 
A vendedora que estava comigo ouviu a conversa e me chamou em reservado; - Chefe eu conheço esse cara é um bom vendedor, já foi até gerente de banco, mas bebe muito, por isso está assim. Eu disse: - bebia, hoje o sol brilhou pra ele, ou ele se ajeita ou se lasca duma vez e eu vou junto. Ela riu e disse: - mas não tem que ser um cara sarado, bonito, – e pôs a mão na boca pra não gargalhar. Eu fiquei pensando: - Pra salvar o pescoço eu faço qualquer coisa. Voltei pra empresa e falei pro GV: - Encontrei o homem, mas preciso da sua ajuda e você disse que a gente iria morrer abraçado, confie em mim eu sei o que estou fazendo. O meu chefe olhou pra mim e me disse: – confiar eu confio, mas ver lá o que vais fazer, a areia tá passando pela ampulheta e tá quase acabando nosso tempo. E continuou: – quem é o rapaz, trás ele aqui que eu quero conversar com ele ver se sinto gosto de sangue. Eu ri e disse: – só vou lhe apresentar daqui há um mês e é aí que você entra, o resto é comigo e se não der certo quem pede a conta sou eu. Ele se mexeu na cadeira e astuto como sempre foi, coçou a barba que não tinha, com certeza se lembrou da palavra dada acenou com a cabeça e disse: – fechado, confio em você.
 
Passei o resto do dia com o noviço, uma ação de planejamento detalhada com status de guerra, não deixei nada em branco do que iriamos fazer para alcançar nosso objetivo e ele se empolgou, ficou alegre porque a maioria do trabalho seria realizado à noite, eu notei o seu encanto e falei: – tem um detalhe importantíssimo, não tocaremos em álcool durante três meses o semblante dele caiu, mas logo retornou, – será que eu aguento, e bradou: – fechado se eu fraquejar me alerte, estamos juntos. Mas a empresa não admitia ninguém sem que estivesse todo na formalidade, documentos em ordem, carteira assinada, exame médico e tudo o mais. Então eu lhe perguntei: – como está a saúde?! Ele já tinha mais de cinquenta anos, - tens algum problema, tipo diabetes, pressão alta?! Ele me interrompeu dizendo: – é melhor você me perguntar o que eu não tenho, por que essas coisas tudo eu tenho, até bico de papagaio, eu ri e pensei: – lascou-se, não vai passar no exame médico e ele me falou: – mas eu vou fazer o exame pode me entregar a guia, eu me calei e o mandei para o RH, – outro detalhe, – pra função havia necessidade de ter carro e ele não tinha, – também me disse: –  não se preocupe no dia eu vou estar aqui com o carro. Passaram-se cinco dias e o homem nada de aparecer e eu inquieto sem sequer saber notícias dele, não atendia telefone e dele ninguém sabia.    
 
No sexto dia, eu entrando no estacionamento da empresa de longe o avistei, estava escorado num Gol vermelho com um envelope na mão, e me ocorreu certo alívio. Ele me viu e foi logo dizendo, vamos pro campo, tá tudo aqui. Eu o abracei. Tudo em ordem, o RH acenou positivo e começamos a trabalhar. O cara foi brilhante o tempo todo, parecia-me que estava com um arsenal de argumentos e estratégias de vendas armazenado, atendia os clientes com pedidos antecipados no mesmo instante que levava no próprio carro os produtos para pronta entrega, no final do dia prestava contas, começou a perder peso e o seu ânimo era notável em duas semanas todas as casas noturnas já estavam com o produto à venda e eu junto com ele só observando e fazendo algumas colocações necessárias. Certa vez o perguntei: - Como é que tu fizeste com os exames?! Ele respondeu: – Chá meu amigo, tomei tanto chá que abaixou tudo e começou a ri e completou: – tu sabes que eu conheço de índio né, pois é, só sei que deu tudo certo; e o carro é emprestado do meu cunhado para eu trabalhar à noite de manhã eu devolvo. Eu não falei mais nada.
 
O fabricante vendo o resultado começou a incentivar, mandava bonificações, prêmios extras de comissão e toda diretoria já estava de cabelo assentado como antes não andava, e o Adail cada dia, mais alegre que nem pinto em merda. Mas ninguém conhecia o “bad boy”, o GV com os números em alta pouco se importava, até um dia em reunião me falar: – Souza, to gostando de ver o desempenho da Red Bull, tá de parabéns, mas cadê o vendedor que ainda não me apresentastes, já se passaram mais de dois meses, lembra?! Eu agradeci o elogio e argumentei que o rapaz trabalhava à noite e precisava descansar durante o dia, desconversei e seguimos a reunião. Mas no final ele me falou: – tá bom qualquer noite dessas a gente se encontra em algum restaurante ou numa casa noturna, aí você me apresenta, mas já leva meu abraço pra ele, estou animado com isso.
 
Não tardou para que nos encontrássemos numa casa noturna, eu estava no balcão conversando com o gerente do bar e o vendedor cortejando os garçons, influenciando-os a oferecer o produto para aqueles que pediam bebida quente, tipo: Whisky, Vodcas e outras, pois o Red Bull tira a sonolência anima e faz com que as pessoas consumam mais as ditas bebidas, o porre é inevitável mais a pessoa não dorme, nem cochila. Foi nesse instante que vi o meu GV à mesa com alguns amigos, ele me viu e perguntou pelo vendedor e eu pensei, - e agora?! Mas resolvi: - Tudo bem, vou chama-lo; quando ele o viu ficou pasmo de queixo caído e me perguntou: – É esse senhor? Eu disse: – sim, esse mesmo; ele apertou a mão do homem balbuciou alguma coisa e me chamou à parte e falou-me meio desesperado: – Rapaz esse cara não tem o perfil que o fabricante quer e agora já está admitido e os diretores da fábrica tão vindo aí, como é que eu vou apresentar essa marmota pra eles? Eu ri pra me espocar, ele também riu muito do que falou, então eu lhe disse: - Meu chefe o que nós precisamos é vender esse produto a contento fazer os números que a diretoria pede e o resto são falácias a gente resolve, deixa esses caras comigo que eu defendo minha tese, ele continuou rindo, mas balançou a cabeça e eu senti que ele ficou preocupado.
 
O produto foi de vento em popa como diz o caboclo, um sucesso, ajudado pela mídia, a venda cada dia maior e tome pedido pra fábrica, manda mais, manda mais, por fim a notícia me chegou, os homens da diretoria e da fábrica tão chegando aí. Nosso Diretor também não sabia de nosso herói sequer o conhecia por fotos. Todo mundo no campo DV, GV e os fabricantes, dois Jovens rapazes e uma moça, entre vinte e cinco a trinta anos, todos visitando os pontos de vendas e interagindo com os gerentes e compradores e o que eles ouviam eram só elogios tipo: aquele Senhor o vendedor é muito bom super atencioso conversador tá fazendo um trabalho excelente aqui com a gente, até arrumar o produto é Ele que faz; todos satisfeitos voltaram pra empresa. Foi aí que mandaram me chamar com o “Bad Boy”, eu disse é agora, chamei o Adail e perguntei pra ele: – sabe fazer mágica?! Ele riu e disse: – depende, pra que?! E eu falei: – pra tu te parecer com o Tom Cruise pelo menos por meia hora. Ele riu e eu disse: – Vamos lá os homens querem falar contigo.
 
Ocorre que eu nunca falei pra ele sobre o perfil pessoal que era necessário para aquela função, por isso Ele estava tranquilo e bem descontraído, mas eu, estava nervoso, não sabia a reação daquelas pessoas. Toquei à porta, abri, entramos e o diretor me perguntou: –  cadê o vendedor?! Eu respondi, – tá aqui esse é o homem. Todos riram e o Adail falou: – o que foi, eu não pareço com o Tom Cruise, não? E a gargalhada foi geral. Pronto, todos simpatizaram com o “Bady boy” e sequer se lembraram do tal perfil sarado, supostamente necessário. E a moça falou, ah, por isso que todos que visitamos falava em tal Senhor, agora entendi. Dali pra frente a história do vendedor mudou, melhoraram a comissão dele e vários prêmios motivadores foram colocados como desafio sobre as metas e a todos ele alcançava. Comprou seu carrinho e já andava como bacana. Ah, ele foi o melhor vendedor a nível nacional e ganhou por prêmio uma passagem pra São Paulo com estadia em hotel cinco estrelas para assistir o grande Prêmio de Fórmula Um daquele ano. Tudo pago pelo fabricante.
 
Com isso eu aprendi por definitivo que não devemos rir da estética pessoal de ninguém, certo ou errado?! As mulheres lá da praça, moravam no condomínio de luxo às margens do parque, lisas não eram...
 
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Antônio Souza
(Contos/Causos)
 
Música:
https://youtu.be/jB5v68mhumA
Vincent bell - Airport love theme
 
 

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António Souza
Enviado por António Souza em 14/05/2019
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