Antônio de Souza Filho
Meus Escritos
Textos
Doutor, trocaram seu NIT
 
O legal da vida é a oportunidade que ela nos dá de fazer escolhas a cada amanhecer, ser alegre ou triste é com a gente, não é verdade? E eu penso que é melhor optar pela alegria, ainda que tenhamos problemas a resolver. Talvez, isso tenha contribuído para um dia feliz. Vou contar pra você meu querido leitor.

Há alguns dias eu vinha me aborrecendo com o carro que temos, muito grande, inadequado para o dia a dia e por outras coisinhas também, que não convém dizer aqui. - Pois bem, saí decidido a comprar outro carro. Na saída de casa notei que o zíper da minha calça apresentava problemas descia sozinho, pensei: - vou assim mesmo. Entrei no Banco pra falar com a gerente da minha conta, ver o que conseguia, mas sempre observando o provável desconforto de certo alguém, que também não convém dizer aqui, - conversamos e a bela moça me apresentou umas condições não muito favoráveis pro carro que eu queria, então eu pensei: - tá chegando final do ano, em dezembro vai haver muitas ofertas, vou esperar mais um pouco; agradeci a gentileza tirei uma gracinha, ela sorriu e eu fui embora.

Na saída, um pouco mais à frente um “outdoor” da CEF parecia estar sorrindo pra mim, então lembrei: - nunca mexi no PIS/FGTS - e o governo tava liberando, - decidi entrar na agência. Na entrega da senha para o atendimento, sorrindo pedi: - prioridade máxima, por favor. A mocinha olhou pra mim e respondeu: -  lamento, mas prioridade só para as pessoas que estão de acordo com aquele anunciado ali e o senhor não me parece estar enquadrado em nenhum caso daqueles, e prosseguiu, olhando pro brasão da República na minha gravata: - não está com bebê no colo, grávido nem pensar, não é aleijado e velho muito menos, pode até ser autoridade, mas aqui não é o caso. Eu pasmei e pensei: - cearense, só pode ser; já nasceu falando que matraca? Aí eu ri... e falei: - como é que você sabe que eu não estou prenho... rsrsr... ela quis ficar séria, mas não conseguia... então mostrei-lhe minha carteirinha da OAB e ela espantou... viu minha idade... nossa! Mas não parece, tá bom, me desculpe, e me olhou doutro jeito que minha carteira tremeu... e eu pensei: - tá, cheirosa... essa cabine está ocupada...
 
Não demorou, por incrível que pareça, e o meu número apontou na tela, aquele toque irritante com a voz mais ainda... 553 por favor mesa 06, um jovem de barba malfeita me deu bom dia e a célebre frase: - “em que posso ajudar”? Eu respondi: - Em tudo, menos n’uma que prefiro não falar... Ele riu e a conversa ficou amistosa, então falei: - Veja se tem alguma coisa pra mim nesse PIS ou FGTS entreguei-lhe o cartão cidadão já desbotado por falta de uso, ele mexeu no computador e imediatamente me falou: - poxa doutor, nada, nem num nem noutro, acho que o senhor já retirou tudo e não deve se lembrar... Eu olhei pra Ele e pensei: - Esse infeliz tá pensando que eu sou lerdo, como é que eu não vou me lembrar se nunca precisei dessa porcaria... e voltei a palavra: - Você tem certeza, não tem nada? Ele disse sim, nada. Aí eu retruquei: - Então, podemos dizer que “fudeu-se”? Ele gargalhou e disse acho que sim e quando ia completar eu lhe disse: - pare por aí esses palavrões somente eu posso falar, to liberado pela idade, ele prosseguiu rindo e eu levantei pra ir embora, já pensando numa ação cível de danos contra a CEF.
 
Quando eu ia me aproximando da porta giratória ouvi uma voz: - “Doutor, Doutor... eu me virei, era o desgraçado acenando com a mão para que eu voltasse lá com ele e assim eu fiz. Me aproximei e na cabine estavam duas senhoras de cabelos já grisalhos, sim, bananeiras que já deram cachos, então eu falei: - mas atenda primeiro as minhas belas amigas, além de estarem na vez são muito bonitas e mulher bonita tá sempre na vantagem... uma delas se ajeitou e disse: - mas por mim doutor tudo bem, esteja à vontade e a outra do mesmo jeito, deu-me vontade de rir pelo modo como falavam, sempre chiando, o que me fez lembrar uma carioquinha que adora puxar no “S” (O mas é mash e por aí afora... rsrsr...) então eu falei: - diga lá meu amigo o que foi, não me venha com mais coisas desagradáveis... ele riu e disse: - Me dê o número do seu CPF, vou consultar por ele, eu entreguei minha carteira e ele respondeu... humm... foi o que eu pensei trocaram seu NIT.
 
Então eu fiz uma cara de grande espanto e bradei: - O QUÊ? TROCARAM MEU NIT? No mesmo instante em que involuntariamente passei a mão pra levantar o zíper da minha braguilha e as duas que estavam ao lado, viram, botaram a mão na boca e começaram a Rir, eu notei o momento e acho que nessa hora o espírito do Rolando Lero baixou em mim, e eu prossegui: - MAS COMO ISSO É POSSÍVEL?  TROCARAM MEU NIT SEM EU SABER, SEQUER ME AVISARAM, AH, MEU DEUS E AGORA O QUE É QUE EU FAÇO SEM MEU NIT. O cara também começou a rir e eu continuei, MAS POR QUÊ? TEM UMA EXPLICAÇÃO PRA ISSO? E AGORA COMO É QUE FICA? O QUE SERÁ DE MIM SEM MEU NIT? O QUE SERÁ DA CHIQUINHA? Olhei pra trás tinha um casal de japonês e eu falei: - TÁ VENDO COMO É? LÁ NO JAPÃO TAMBÉM É ASSIM, TROCAM O NIT DAS PESSOAS SEM MAIS NEM MENOS?! Eles riram. As duas na cabine já morriam de rir e uma dizia pra outra esse doutor parece que é doido. Aí, a mais desenrolada levantou-se e disse: - mas doutor, o senhor sabe o que é NIT? E eu disse: - CLARO QUE NÃO, ME DIGA POR FAVOR... POR QUE ME PARECE QUE COMIGO TÁ TUDO EM ORDEM, morrendo de rir por dentro...
 
Aí o rapaz falou: - Mestre é o novo número. PIS e NIT é a mesma coisa...e veja só, tem uma surpresa aí pro senhor... eu peguei a guia e fui pro caixa, fiquei à frente do casal japonês que também tinham ouvido a galhofa toda e não paravam de rir – aí eu pensei: - ah, meu Deus hoje é o meu dia de graça. A moça do caixa começou a contar o dinheiro eu pensei: - ela deve estar enganada, - eu vi a bolada toda e perguntei: - é isso mesmo? - Achava que iam me pagar apenas os resíduos essas coisas assim, pouca coisa, mas não, era aquilo mesmo, então pedi que transferisse pra minha conta no BB e fiquei super feliz. Enquanto ela fazia a transferência eu conversava com os japoneses risonhos, por fim perguntei seus nomes e o cara me falou quase rindo: ...  o meu nome é Senhor Keremeter e o dela é Senhora Kétrepar...  pronto! Lascou-se!!!
 
Não sei se foi a opção pela alegria que me trouxe um dia feliz... saí dali fui comprar o carro que eu queria.
 
Abraços!



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Antônio Souza
(Contos/Cotidiano/Humor)
 

www.antoniosouzaescritor.com
Antônio Souza
Enviado por Antônio Souza em 26/10/2019
Alterado em 28/10/2019
Comentários
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Cristina Gaspar
Ainda estou rindo enquanto dígito rsss...que saga...começou com uma braguilha e rendeu uma história incrível, parabéns. Obrigada por seu carinho constante, abraços fraternos, Deus lhe guarde.
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Marcus Rios
Aplausos pelo bom texto de humor, sensacional. Parabéns! E que Deus nos abençoe e nos ilumine... Sempre.....
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Lucas Louis Grauthier
Parabéns, grande mestre Antônio: Uma beleza de conto. Tens uma forma de escrever seus contos, que nos leva a viver realmente tudo que escreve. Eu acho divino isto em você. Me senti do seu lado e rindo junto. E você olhando pra mim mandando eu parar de tanto rir. Ah, mestre você não existe mesmo. Acabou que saiu com documentos novos e ainda com um lindo carro. Ah, que algo melhor?. Além, de colocar um belo sorriso em todos seus leitores. Deve ser muito divertido estar ao seu lado mestre. Tenho muito orgulho de ser teu amigo. Tens um astral maravilhoso e com certeza és um amigo maravilhoso para seus amigos. Espero um dia ter a honra de conhecê-lo pessoalmente. Deve ser divino, estar ao seu lado. Mestre você é mil. Adoro quando leio seus belos contos. Todos muito bem inspirados. Fico imaginando você assistindo o jogo do nosso Flamengo. Deve ser o máximo. Bravo grande mestre. Seu talento é algo impecável. Grande abraço e um maravilhoso final de semana.
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Cristina Gaspar
Pleno finados e eu gargalhando aqui, que aventura meu caro, gostei demais desta história, obrigada por partilhar seja ela real ou ficção, me diverti muito, obrigada sempre por suas amáveis e incentivadoras visitas, abraços fraternos de luz, Deus lhe guarde, muita paz para o dia de hoje. // * Um pedido para aceitar ou não, fique à vontade, mas, se um dia se tiver curiosidade me visite num conto de ficção científica As Chinelas (tem I e II e ambos também reeditados) talvez goste.
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Iolandinha Pinheiro
Que aventura, viu? Que bom que tudo acabou bem. E aí, trocou o possante? Eu ri da matraca cearense, mulher cearense fala muito mesmo. Rs. Delícia de conto, parabéns. Abraços e obrigada.
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