Antônio de Souza Filho
Meus Escritos
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O lamento noturno dos viúvos
(Crônicas/Cotidiano)
 

O título acima é parte da letra de uma canção do Alceu Valença, cantor e compositor nordestino que eu amo ouvir. Chama-se "Na primeira manhã...", sempre que ouço penso, como esse verso me tocou, desde que ouvi pela primeira vez. Lembro muito bem de seu lançamento, o clip foi mostrado no Fantástico, lá em 1980, por aí... faz pouco tempo, né (rsrsrs). Ele cantava enquanto o Trem corria entre Londres e Paris. Muito lindo.

Pois bem, há poucos dias atrás eu estava assistindo uma entrevista tipo “documentário” de dois atores que também gosto muito; Eles são casados e felizes há muitos anos "Tarcísio Meira e Glória Menezes", enquanto falavam, podia-se perceber o carinho recíproco entre eles, vez em quando Ela segurava na mão dele, sorriam e se olhavam com ternura. Eu fiquei encantado e pensei: - Meu Deus... nessa época de pandemia, se Ela morrer como será que Ele vai ficar... me lembrei da canção; também pensei: - Acho que Ele faria um poema gótico, tem cultura pra isso, mas deixei pra lá e me condenei como agourento.

No dia seguinte era sábado e fui fazer o que mais gosto na semana; arrumei algumas coisas e fui p’ro sítio. Eu enquanto dirijo adoro pensar e falar sozinho, a estrada é linda e a paisagem é maravilhosa, ouço minhas canções prediletas e ao longo da viagem converso com as arvores, tenho a impressão que elas já me conhecem e acenam pra mim. - Antes de entrar numa zona sem cobertura de celular e internet, olhei meu aparelho, não havia nenhuma mensagem, sequer uma curtida de algum amigo meu. Segui meu caminho, bem despreocupado. A manhã estava linda, involuntariamente a tal canção surgiu no som do meu carro, adorei, mas me voltou a lembrança dos queridos atores.

Uns tantos quilômetros mais adiante, surgiu sinal de internet; parei o carro e fui ver novamente, foi então que me deparei com uma mensagem, era da filha da mulher do meu caseiro, dizia assim: - Doutor, me perdoe se o incomodo a essa hora, mas ainda não tive coragem de lhe falar, minha mãe morreu e o enterro dela foi anteontem... e prosseguiu com a mensagem. - Aquela notícia chegou-me como uma flecha varando meu coração, não tanto por mim, mas pelo “Bada” o senhorzinho que toma conta de nossa casa lá no sítio, sabia o quanto Ele a amava e como Ela era legal com Ele. Imediatamente vi a cena entre eles que tanto me encantou:  - Ele estava trabalhando numa cerca e Ela mesmo doente colocou uma cadeira em baixo de um cajueiro próximo a Ele, ficou sentadinha ali e com um ramo de flor parecia brincar com Ele e o fazia sorrir; de longe eu vi aquilo achei muito romântico e fiquei feliz por eles. - Como por implicância a música novamente voltou a tocar. Também me lembrei do dia que tomei a decisão de contratá-lo, não era somente por Ele, mas por saber que tinha uma mulher, que eram somente os dois, que se amavam e gostavam de flores. Constatei isso quando estive na casa deles; casinha humilde, mas cheia de flores, vi amor ali, nos simpatizamos de imediato.

Quando cheguei no sítio, vi os sinais da tristeza, alguns matos crescidos, coisa que nunca acontecia, de longe o vi numa cadeira, sentado e de cabeça baixa, me aproximei; o Bada levantou a cabeça bem devagar e seus olhos pareciam uma poça de sangue, as lágrimas corriam e ele balbuciou um pedido de desculpas; eu fiquei entalado, não sabia se o abraçava ou lhe dizia alguma coisa, mas indaguei: - por que tá me pedindo desculpas!? Ele apontou pro mato crescido, eu torci o beiço e busquei abraçá-lo; Ele desabou num choro alto, eu arrumei meu óculos escuro e tentei acalmá-lo. Outra vez Ele me olhou, trincou os dentes tentando segurar o choro e me disse com a boca molhada: - Doutor, Ela era tudo que eu tinha, tudo que eu fazia pensava nela, e com o semblante desvalido prosseguiu..., - meu dinheiro eu dava todinho pra Ela. Ela cuidava de tudo... - Pedi que se acalmasse com as palavras que estão sempre de plantão. Resolvi passar a noite no sítio, p’ra lhe dar apoio moral.

Foi então prezado leitor que eu fui apresentado pessoalmente para o verso que dá luz ao título desse texto, "O lamento noturno dos viúvos". Nunca vi uma letra de música ser tão autêntica na sua tradução. Naquele momento compreendi o que o poeta quis dizer quando se sentia "como um bumba meu boi sem capitão" e "como um boi no meio da multidão", além de "como um gato gemendo no porão" - você vai entender se ouvir a música. - O Bada não conseguia dormir... do meu quarto eu o ouvia chorar e se lamentar, Ele dizia algumas coisas e em seguida expressava o que para mim foi o poema mais triste que já ouvi na minha vida, Ele dizia: - "Puxa vida" e mais um pouco, dizia de novo "Puxa vida”, aquilo me entristeceu profundamente. Tornei a lembrar dos atores e pensei: - o Tarcísio poderia fazer um poema lindo de saudade e sentimento pela Glória, mas jamais alcançaria essa dor tão sentida do Bada.

Antes das seis da manhã eu levantei, fui caminhar um pouco pelas trilhas da mata, o sol chegando por entre as folhas das árvores é simplesmente maravilhoso. Senti que precisava escrever aquele momento e tudo que estava me afligindo, a história real do Bada e a imaginável situação dos atores, ainda felizes, além da música que não me saia da cabeça.  Assim, voltei p’ro sítio, fiquei por algumas horas olhando as águas do igarapé correrem ao seu destino, depois voltei p’ra casa, à tarde fui na praia, onde costumo meditar e ali compus o poema que no dia seguinte publiquei. "Lilian, meu amor". Vestindo a notável carapuça de Bada e a provável situação de Tarcísio Meira, que desejo não aconteça tão cedo.

Hoje fui novamente no sítio, o Bada continua triste.
 

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Antônio Souza
(Crônicas\Cotidiano)
 
Música: https://youtu.be/MOAAf1UTXRo
Alceu Valença - Na primeira manhã
 
www.antoniosouzaescritor.com

 
 
 
Antônio Souza
Enviado por Antônio Souza em 18/04/2021
Alterado em 18/04/2021
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