Marquinhos o FDO
(Miniconto)
Celestino era um bom marido, desses de rotina impecável e silêncio educado. Mas no bolso do coração guardava vontades clandestinas. Talvez pelo que tinha visto na própria família, com o seu Pai e também seu Avô. Um dia cedeu: teve uma amante, acreditando que o segredo viveria de portas fechadas. Porém, tinha medo de gerar um filho fora do lar — mas o medo virou fato. A moça engravidou, o menino nasceu, e a verdade, paciente, cresceu. Quando soube, Celestino entendeu que não há segredo que resista ao tempo. Mesmo assim, fez o correto, registrou a criança, deu-lhe, também o necessário para crescer com dignidade, custeava a sua vida e da garota; ia com frequência na escola e passeava com a criança nas horas de folga. Um dia por descuido alguém de sua família o viu com a criança. Já em casa foi questionado. Não titubeou. Sentou-se à mesa e contou à família. Ali, entre pratos frios e olhares quentes, perdeu a paz antiga e ganhou um peso novo: o da verdade dita tarde demais.
Antônio Souza
(Escritor/Poeta)